4.9.08
 

O GRITO

Tomei um baita susto esses dias ao perceber a derradeira verdade.

Desde pequena, eu brigava muito, mas muito, com minha avó. Ela levantava muito cedo todos os dias, trabalhava como uma louca lavando roupa, louça, banheiros. Ai, os banheiros. Até hoje, ela faz tudo sempre igual. Eu não entendia porque aquela vida dela. Não havia ninguém mandando que ela fizesse tudo aquilo. Levantar às seis da manhã, sem um patrão, sem um salário. Apenas para começar a lavar roupas e, por volta das 3 da tarde, com tudo terminado, descansar. Todo dia era aquilo ali. Acordava, trabalhava, comia, trabalhava, descansava. Foi quando descobri que era o princípio da disciplina. Algo que sempre rechacei. Sempre sem experimentar. Rotina e disciplina. O pilar de uma vida tranquila no entendimento.

Desde pequena, eu brigava muito com minha mãe pois ela parecia distante e eu queria uma mãe amiga. Minha mãe viajava muito e eu a admirava, mas queria que ela fosse mais presente e descolada. Quando percebi que mãe é mãe, não é colega. Mãe é pra gente, não para a platéia. Mãe é guia, não palpiteira. O principio do desenvolvimento, que minha mãe tem na alma. Um dos mais bonitos pilares que eu poderia aprender a construir.

Desde pequena, eu brigava e muito com meu pai. Ele, com aquela mania de dia sim, dia não, correr no Parque do Ibirapuera. E me irritava ao falar que fumar faz mal à saúde. E falar que eu precisava comer verduras e legumes. Eu odiava todos os verdes. E eu já sabia de tudo aquilo! E ele lá, mantendo cada vez mais o controle dos exercícios físicos, se gabando de todos os quilômetros que correra. Foi quando entendi a preciosidade do princípio de louvor, reverência e respeito ao corpo. Um dos mais perfeitos pilares para minha vida em plenitude com o espírito.

Desde pequena, eu brigava e muito com meu irmão. Aquele menino não falava! E não fala até hoje. Para descobrir o que se passa na cabeça e na vida dele é um sacrifício. No começo, a gente achava que era timidez, que ele precisava de terapeuta. Mas... o princípio do silêncio. O mais importante pilar para uma vida em pleno entendimento do corpo, da alma, da mente.

Dentro de minha própria casa.
Dentro de minha própria casa eu tinha todas, absolutamente todas, as faces da perfeição. Do que eu tinha que implantar em minha vida para ter ordem, discernimento, hamornia, saúde, felicidade. Geralmente a característica que mais me irritava, era ali, ali que morava todo o meu desafio solitário, único. Minhas brigas com cada uma dessas pessoas dentro de minha própria casa só aconteceram por causa das minhas deficiências que eu não queria enxergar. E a coisa foi tomando um rumo maior, enlouquecedor. Praticamente todas as discussões a que eu me propus na vida inteira, com qualquer outra pessoa, foram das minhas deficiências que eu não soube (não quis, vamos lá!) perceber em mim. Fui antes para o enfrentamento com o outro, do que para o contato comigo mesma. Fui tentar ser o oposto do que me pediam, antes de dar o braço a torcer.

E tomei um baita susto esses dias ao perceber a derradeira verdade.

A vida é mais simples e fácil do que a gente imagina.

Hoje eu levanto muito cedo, seja segunda, terça, sábado ou domingo. Isso me dá disposição e prazer imensuráveis ao final de um dia de labuta forte ou num dia de grandes perspectivas de lazer e descanso. Moro a um oceano de distância de mamãe mas sinto que ela está tão próxima como se dormisse no quarto ao lado. Faço ioga, corridas, não fumo, não bebo, não como carne vermelha, o que deixa meu pai estupefato com tanta saúde. E o silêncio... do meu pequeno grande irmão, que a cada dia se torna uma pessoa mais grandiosa ainda, dentro de seu silêncio que, aos 21 anos, me faz uma inveja danada. Mas estou começando a conseguir copiá-lo, principalmente pois casei com um homem que tem grande abrigo no silêncio também. De olho nele, consigo enxergar como posso aplicar esta serenidade em minha vida. Com o exemplo dentro de casa fica mais fácil praticar.

Nenhuma dessas disciplinas eu precisei me impor com sofrimento. O start foi quando olhei e percebi que eu não tinha escolha. A partir do momento em que decidi viver o presente, não havia como fugir mais nenhum segundo. Parei de resistir. Com consciência. E prática. Prática diária.

Tudo é exemplo. Para começar a fazer a diferença neste lugar em que a gente vive, não precisamos de grandes feitos, grandes textos ou grandiloquência. É só viver de acordo com o que a gente acredita. E prega. E faz. E pemb! Vai nascer uma legião de gente querendo seguir os mesmos passos da gente... Porque é bonito. Porque é fácil. Porque traz felicidade. Quer um exemplo?

Ana Margrit | 4.9.08 | Manuscritos


3.9.08
 

Caminhos alternativos
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Ana Margrit | 3.9.08 | Manuscritos


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