22.12.07
 

Despertar

Eu não posso ser descoberta. Nua assim, sem fazer sentido. Uma peça quebrada dentro de um grande vazio. Torto, áspero. O pensamento que vem até mim é o mesmo que se multiplica e me confunde. Sou um todo bonito sem fazer sentido? Ou toda feiúra que me ata é aquilo ao que não quero dar nome? Quero me ausentar de mim e não consigo. Pois meu raciocínio é mais rápido e me sabota. Porque não quero encarar que sinto raiva e resisto. Registro de infância que é feio sentir medo ou tristeza. A dor é parte da vida. E se a vida é bonita, é também porque aprendeu a sentir dor.

Mas quando dói vem o choro. Se cristalina a lágrima chega e desperta a proeza de se sentir vivo, de se sentir presente, a dor completou seu destino. A dor é boa de ser doída. A vida não presta para quem se ausenta. A vida vive naquele que sabe estar presente. Que delimita seu todo num eu espetacularmente único. Que não abre mão das próprias verdades.



Eu folgo em dias que preciso de mim. Apenas um respiro não traz alívio. A sensação do melhor trabalho concluído é inútil se o prazer não foi o trabalho, mas o reconhecimento. Há muito corri atrás de ser reconhecida, quando eu mesma não me via em mim. Mas, um pouco adiante, veio a seiva. Ela começou a querer transbordar. E no dentro de mim começou a pulsar a necessidade de espaço. Eu era um todo grande a mostra, sufocada por tanta ausência. Por tantos deveres corrompendo meu querer. Eu já não sabia o que queria. E desejei fazer da tortura apenas um passado.

Eu precisava ser tão. Eu precisava deserto. Ver a imensidão do prazer que eu estava secando.

Quando chorei pela última vez, percebi que não poderia tolerar tanta tirania. Sutilmente passei a optar pela leveza. Pelo distanciamento daquilo que viria a me agredir. Mesmo que de início representasse isolamento. De admiração em admiração, perceber qual a responsabilidade do meu olhar sobre aquilo que de fato tem beleza. E toda beleza mora dentro de mim. Toda a magia fui eu que construí. E toda alegria deriva da minha certeza de estar viva. Ser tão viva. Ser tão eu. Árida. Seca. Rica. Ser tão todo. A possibilidade de sensação foi o princípio do prazer. Minha maior descoberta estava mais próxima do que eu imaginava.

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parasme


Ana Margrit | 22.12.07 | Manuscritos


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