PRESENTE Não fui o meu melhor e perdi a tua festa. Tua presença. Aspereza. Piedade.
Pulso de infinito de sentimento. De histórias que se enganam, enroscam, navegam inda mais. Perdendo lábios, sábios conflagelos. Beijos tortos e inteiros. Discursos nossos e certeiros. Vazios de negativas. Posso conquistar a sua casa? Não, então me respondeu. Eu doí navegações, desilusões, maturidades. Sou criança de perna só. Personagem de um conto triste de viver sozinho. Verdade escorre doer inteiro. Samba de porta-bandeira de si. Linda. Só. Inda. Mais.
O que resta é esse nó. De garganta, de sentimento, de vida passada e vivida. De dizer que já fui sua, minha alma, cada pulso, cada susto, cada laço. De recordação que a gente vê passar na frente e não acredita que passou. Qual vida? Aquela quase morte. Aquela que pululava, rainha. Ainda existem. Desse vulcão que mora aqui dentro, de cores e vertigens. Que periodicamente insiste em transbordar. Toda complexidade, daninha. Voltei a cantar. Queria te dizer. Que todo sentimento que revive, só existe dentro de mim. Que todo universo de vermelhos e paixões é de minha natureza. E de outras vidas passadas, só me esqueço dos instrumentos. Comezinhos trapezis. Sinto. Ser pessoa é ser efêmero, ser alguém para alguém é morrer um tantinho pra gente. Neste circo. Somos o que sentimos. Em primeiro plano. Infinito. Um vulcão e esse nó. Resta na garganta um quente de vida breve, vivida. Eu sou. De sobressalto.
Tomei um baita susto esses dias ao perceber a derradeira verdade.
Desde pequena, eu brigava muito, mas muito, com minha avó. Ela levantava muito cedo todos os dias, trabalhava como uma louca lavando roupa, louça, banheiros. Ai, os banheiros. Até hoje, ela faz tudo sempre igual. Eu não entendia porque aquela vida dela. Não havia ninguém mandando que ela fizesse tudo aquilo. Levantar às seis da manhã, sem um patrão, sem um salário. Apenas para começar a lavar roupas e, por volta das 3 da tarde, com tudo terminado, descansar. Todo dia era aquilo ali. Acordava, trabalhava, comia, trabalhava, descansava. Foi quando descobri que era o princípio da disciplina. Algo que sempre rechacei. Sempre sem experimentar. Rotina e disciplina. O pilar de uma vida tranquila no entendimento.
Desde pequena, eu brigava muito com minha mãe pois ela parecia distante e eu queria uma mãe amiga. Minha mãe viajava muito e eu a admirava, mas queria que ela fosse mais presente e descolada. Quando percebi que mãe é mãe, não é colega. Mãe é pra gente, não para a platéia. Mãe é guia, não palpiteira. O principio do desenvolvimento, que minha mãe tem na alma. Um dos mais bonitos pilares que eu poderia aprender a construir.
Desde pequena, eu brigava e muito com meu pai. Ele, com aquela mania de dia sim, dia não, correr no Parque do Ibirapuera. E me irritava ao falar que fumar faz mal à saúde. E falar que eu precisava comer verduras e legumes. Eu odiava todos os verdes. E eu já sabia de tudo aquilo! E ele lá, mantendo cada vez mais o controle dos exercícios físicos, se gabando de todos os quilômetros que correra. Foi quando entendi a preciosidade do princípio de louvor, reverência e respeito ao corpo. Um dos mais perfeitos pilares para minha vida em plenitude com o espírito.
Desde pequena, eu brigava e muito com meu irmão. Aquele menino não falava! E não fala até hoje. Para descobrir o que se passa na cabeça e na vida dele é um sacrifício. No começo, a gente achava que era timidez, que ele precisava de terapeuta. Mas... o princípio do silêncio. O mais importante pilar para uma vida em pleno entendimento do corpo, da alma, da mente.
Dentro de minha própria casa.
Dentro de minha própria casa eu tinha todas, absolutamente todas, as faces da perfeição. Do que eu tinha que implantar em minha vida para ter ordem, discernimento, hamornia, saúde, felicidade. Geralmente a característica que mais me irritava, era ali, ali que morava todo o meu desafio solitário, único. Minhas brigas com cada uma dessas pessoas dentro de minha própria casa só aconteceram por causa das minhas deficiências que eu não queria enxergar. E a coisa foi tomando um rumo maior, enlouquecedor. Praticamente todas as discussões a que eu me propus na vida inteira, com qualquer outra pessoa, foram das minhas deficiências que eu não soube (não quis, vamos lá!) perceber em mim. Fui antes para o enfrentamento com o outro, do que para o contato comigo mesma. Fui tentar ser o oposto do que me pediam, antes de dar o braço a torcer.
E tomei um baita susto esses dias ao perceber a derradeira verdade.
A vida é mais simples e fácil do que a gente imagina.
Hoje eu levanto muito cedo, seja segunda, terça, sábado ou domingo. Isso me dá disposição e prazer imensuráveis ao final de um dia de labuta forte ou num dia de grandes perspectivas de lazer e descanso. Moro a um oceano de distância de mamãe mas sinto que ela está tão próxima como se dormisse no quarto ao lado. Faço ioga, corridas, não fumo, não bebo, não como carne vermelha, o que deixa meu pai estupefato com tanta saúde. E o silêncio... do meu pequeno grande irmão, que a cada dia se torna uma pessoa mais grandiosa ainda, dentro de seu silêncio que, aos 21 anos, me faz uma inveja danada. Mas estou começando a conseguir copiá-lo, principalmente pois casei com um homem que tem grande abrigo no silêncio também. De olho nele, consigo enxergar como posso aplicar esta serenidade em minha vida. Com o exemplo dentro de casa fica mais fácil praticar.
Nenhuma dessas disciplinas eu precisei me impor com sofrimento. O start foi quando olhei e percebi que eu não tinha escolha. A partir do momento em que decidi viver o presente, não havia como fugir mais nenhum segundo. Parei de resistir. Com consciência. E prática. Prática diária.
Tudo é exemplo. Para começar a fazer a diferença neste lugar em que a gente vive, não precisamos de grandes feitos, grandes textos ou grandiloquência. É só viver de acordo com o que a gente acredita. E prega. E faz. E pemb! Vai nascer uma legião de gente querendo seguir os mesmos passos da gente... Porque é bonito. Porque é fácil. Porque traz felicidade. Quer um exemplo?
Para mim, viajar sempre foi um retiro para a alma. Quase um ritual de olhar para dentro. Pois ao viajar, sempre conseguia diminuir o hiato, o grito, o medo da rotina. Engraçado que em todas as viagens, a rotina de hábitos e presenças foi o que mais se fez presente. Convites para viagens que nada diziam para mim, sinônimo de recusa. Temos que ser mais honestos uns com os outros, era o que eu pensava. E recusei. Dezenas delas.
Entretanto, venho enfrentando uma descoberta. A mais recente. Tenho sentido por estes dias as mesmas sensações de maravilhamento que tive ao estar em Nova Iorque, em Roma, em Los Angeles, em Londres, em Praga e em Paris (as poucas cidades que conheço até hoje). A sensação do novo. A sensação de que estou presente e o cotidiano olha para mim, passa ao largo e eu consigo me destacar daquilo tudo ao mesmo tempo que sou tudo aquilo ali, acontecendo, agora.
O agora... estou viva no agora. Observando as pungências, as presenças e as ausências. E no meio de tudo isso, a vitalidade. A vontade de viver de verdade. O amor que sinto pelas pessoas pelas quais eu realmente sinto uma conexão. Amor.
É o amor maior que o mundo. Viver no agora. Viver no presente. Silêncio.
E vem a questão. Viajar para dentro de si; será que esta é a melhor viagem? Pena que ainda são poucas as pessoas que têm a dimensão do que é viajar para dentro de si. Mas o negócio está crescendo... tá crescendo.
Consciência corporal era algo que eu pensava que, definitivamente, não existia. Ou, se existisse, definitivamente não era coisa pra mim. Pois não é que meu corpo vem reagindo de uma maneira muito esquisita ultimamente? E melhor: venho reparando e sentindo suas broncas. Por exemplo, o café. Algo que sempre adorei. Desde a bebidinha até os pontos que em São Paulo se propagam (e que em Nova York, ah, Nova York... pontos que são a cara de Nova York e eu adoro).
Continuo amando os lugares que servem café. O cheiro, o charme. Tudo. Continuo curtindo demais cada um, assim como a padaria do seu Benjamin Abraão, em Higienópolis. Ou a padaria Angélica, um pouquinho mais pra baixo do bairro. Ou a Letícia, no Alto da Lapa. Cristalo, Suplicy, até a Starbucks me encanta. Mas meu corpo não suporta mais, entretanto, a bebida. Bemg! Taquicardia insuportável. Até vontade de fumar dá. Parei de fumar faz um tempo e não tive recaída. Tenho certeza de que a massagem ayurvédica me ajuda muito. Mas a consciência que a massagem proporciona me deixa mais equilibrada para fazer e refazer minhas escolhas. Escolhi que não vou beber mais café. Comentei com minha nutricionista sobre esse lance, da irritação que sinto também. E ela foi clara. O corpo está sempre respondendo imediatamente ao alimento. Dar taquicardia é o mesmo que o corpo gritar que não quer aquilo aí. Ou seja, basta com o café.
Acabei de assistir ao filme "Breakfast at Tiffanys". Lindo, sempre. Engraçado como o cigarro e tudo o que é ruim fica charmosinho nesses filmes.
Voltando ao corpo, não é só com café que as coisas têm ficado críticas. O excesso de pão. Percebi também que fico irritadiça. Com bebida alcoólica, sem comentário. A sensação de inchaço no dia seguinte é insuportável. E penso: tem certas coisas que são boas demais, mas o preço que a gente paga por consumí-las é alto demais. A consciência fica entorpecida. E pôr pra dentro algo que vai afetar meu poder de discernimento? Tô cada vez mais fora. Engraçado é meu marido começar a ver meus hábitos e começar a mudar os deles também. Sem eu dizer nenhuma palavra! DE FATO, o exemplo faz milagres. Cobrança e chateação tá com nada. Tá todo mundo bem grandinho pra saber o que é melhor pra si mesmo.
Em tempo, não estou mais na yoga todos os dias. Agora, três vezes por semana. Puxar demais o ritmo, sendo que nossa cabeça não acompanha, é só um passo para a frustração. Eu não estava acompanhando e, ao começar a perceber essa frustraçãozinha, pem! hora de revisar conceitos. Dei uma relaxada e como isso me fez bem. Yoga sempre. Mas é mais importante a gente perceber nossos limites e qual a finalidade de tudo aquilo. Seja com a yoga, seja com um sorriso, seja com uma bronca, seja a aceitação, seja a hora de dizer não.
Eu, que nunca me vi movendo um braço, agora entrei naquelas de Yoga. Já faz duas semanas. Um susto completo. Reviravolta na vidinha da sedentária. Mentira dizer que não há dias em que eu quero morrer de preguiça estirada em minha cama cheia de edredom vermelho e gostosuras de travesseiro. Mas a minha frase para o maridenho semana passada resume: - por favor, quando me der desânimo de ir para a yoga, me obrigue a ir. Por favor. Porque é imenso o bem estar que dá ao terminar todas as posturas, tomar meu banho e me sentir mais ali, mais presente, mais tudo." And i mean it.
Não que, durante os chamados "ásanas", eu não queira morrer de sede e de tudo. E me veja em momentos pensando "o que eu vim fazer aqui, sofrer com essa dor pelo corpo, não sei fazer nada disso, sou um desastre". Claro, sou totalmente inflexivel. No corpo e na vida. E não sei respirar. Há! Eu quis chegar no primeiro dia de aula botando pé atrás do pescoço e me achando o ó. Não consegui nem me equilibrar. Mas vou levando e sorrindo. Essa tal yoga resolveu mexer com tudo e o mais bacana são essas percepções que a gente tem, bem mais claras do que antes: nossa, sou inflexivel... nossa, sou perfeccionista... nossa, não consigo me concentrar! Calma, você tem a eternidade, nêga... Tá com pressa?
Bem legal. Vamos ver se consigo passar a marca de um mês. "Não tente, faça!" - já vem a voz de minha massagista açoitar minha preguicinha. Ela, que é um ano mais nova que eu, está casada há mais tempo que eu, mora numa casa maravilhosa cheia de mandalas, verde e tudo de bom, e ainda pratica (e dá aulas d)a tal yoga há cinco anos e quando respira, parece que tem um tufão saindo dos pulmões. Parece que a vida é o ar que sai do pulmão dela. Bem legal.
A era da tecnologia tem facilitado a vida do homem em vários aspectos mas revela um lado obscuro, prejudicial para o planeta: o lixo eletrônico. Formado por baterias, peças de computador e todo tipo de material, leva anos e décadas para se decompor. O que hoje é equipamento de ponta amanhã transforma-se em bugiganga. A repórter Petria Chaves apresenta uma série de reportagens que aborda a forma como nós lidamos com o avanço da tecnologia, a legislação e iniciativas da sociedade civil a esse respeito. Ouça aqui os três capítulos da série.
Estou me acostumando a este novo estilo de vida. Uma nova vida. Completa. Engana-se quem pensa que é fácil acostumar-se ao bem estar. São anos e anos entronisando desconforto. Desde pais e avós, o preceito do ideal é este: o desconforto, o não estar. Seja pelas metas que você deseja alcançar e desiste pois seus amigos rechaçam, desrespeitosos. Seja pelas idéias que você acredita verdadeiras, mas que abandona pois o grupo não apóia. Seja pelas vontades, que a família condena. Curiosa essa relação eu versus O mundo. Pois é uma batalha, é uma guerra. Matar o mundo e, cada um, correr para descobrir o que se é. De verdade. Pra si. E apenas.
Ainda existe a oportunidade de começar a correr. Agora.
Com nova vida quero dizer: casamento, parar de fumar, compra da casa, do carro. Planos para trazer um filho a este mundo. Sucesso sem culpas no trabalho. Muito sucesso. Na casa, no trabalho, com amigos, com a família. Dinheiro. Parece pouco? Parece muito? A perfeição está sempre tão próxima mas é difícil se acostumar à idéia. São tantos "tenho que" que nos esquecemos do "o que eu realmente sou". Quando o limite entre eu e o mundo se dissipa, restam só maravilhas. Restam só felicidades. Restam apenas sorrisos. Nem a morte é capaz de desfazer a certeza de que o sopro maior é o que nos une para sempre.
Nem a morte é capaz de dizer que não vivemos maravilhas. Despertares.
Tão mais inspirada. Foi ao ver a noite que a verdade se emocionou. Sem vestígios do nada, do vazio onde vivia. A menina criou a ciranda e no mar mergulhou.
Queria sorrisos profundos. Encontrou beleza ao sentir amor. Criou majestade entre reis e rainhas. Lambuzados de reverência à autoridade da menina. Ela queria encontrar o além. Foi e buscou.
Dentro e tanto. Não foi preciso extroverter-se. A menina constatou. Ela tilintava maravilhas. Entre sorrisos e doçuras. Era uma beleza de menina. Que cantava às escuras, porque sua alma ainda era tímida, enquanto um vulcão encandeava todas incertezas. Nela e tanto.
Nego contato com todas mesquinharias - decidiu. Vira e mexe, possuída por almas e ventres, inspirada por cíclicas ondas de leveza, derramando emoções pelo caminho a menina. A menina. Cirandava pequenas canções antes de dormir. Nego tudo o que não for minha própria verdade - deusa de si. Majestosa, garota frondosa. Conhecia o eterno. Aprendia a sorrir.
Eu não posso ser descoberta. Nua assim, sem fazer sentido. Uma peça quebrada dentro de um grande vazio. Torto, áspero. O pensamento que vem até mim é o mesmo que se multiplica e me confunde. Sou um todo bonito sem fazer sentido? Ou toda feiúra que me ata é aquilo ao que não quero dar nome? Quero me ausentar de mim e não consigo. Pois meu raciocínio é mais rápido e me sabota. Porque não quero encarar que sinto raiva e resisto. Registro de infância que é feio sentir medo ou tristeza. A dor é parte da vida. E se a vida é bonita, é também porque aprendeu a sentir dor.
Mas quando dói vem o choro. Se cristalina a lágrima chega e desperta a proeza de se sentir vivo, de se sentir presente, a dor completou seu destino. A dor é boa de ser doída. A vida não presta para quem se ausenta. A vida vive naquele que sabe estar presente. Que delimita seu todo num eu espetacularmente único. Que não abre mão das próprias verdades.
Eu folgo em dias que preciso de mim. Apenas um respiro não traz alívio. A sensação do melhor trabalho concluído é inútil se o prazer não foi o trabalho, mas o reconhecimento. Há muito corri atrás de ser reconhecida, quando eu mesma não me via em mim. Mas, um pouco adiante, veio a seiva. Ela começou a querer transbordar. E no dentro de mim começou a pulsar a necessidade de espaço. Eu era um todo grande a mostra, sufocada por tanta ausência. Por tantos deveres corrompendo meu querer. Eu já não sabia o que queria. E desejei fazer da tortura apenas um passado.
Eu precisava ser tão. Eu precisava deserto. Ver a imensidão do prazer que eu estava secando.
Quando chorei pela última vez, percebi que não poderia tolerar tanta tirania. Sutilmente passei a optar pela leveza. Pelo distanciamento daquilo que viria a me agredir. Mesmo que de início representasse isolamento. De admiração em admiração, perceber qual a responsabilidade do meu olhar sobre aquilo que de fato tem beleza. E toda beleza mora dentro de mim. Toda a magia fui eu que construí. E toda alegria deriva da minha certeza de estar viva. Ser tão viva. Ser tão eu. Árida. Seca. Rica. Ser tão todo. A possibilidade de sensação foi o princípio do prazer. Minha maior descoberta estava mais próxima do que eu imaginava.
Qual o livro que você nunca escreveu? Sobre uma paz inerente, um gozo compartilhando sorrisos, pulsões de completude, felicidade. Sobre pessoas que pensam. Sobre gente viva, gente que não se comporta como boiada em dia de chuva esperando para entrar no transporte coletivo. As criaturas, cada vez mais embrutecidas, fazem o caminho inverso da flor. A primavera caminha para o inverno da suprema inteligência. O tímido egoísmo, que não se revela, se escamoteia em atitudes altruístas que reconfortam um ego recompensado pelo moralismo cristão. Condena, feroz, a felicidade alheia para não encarar a própria mediocridade. Manada. Sem pensar, o movimento automático é da tristeza. Vociferar. Um banco de ônibus vira motivo de agressões. Pois tanto quem senta como quem olha e quem fica de pé não encara o outro como pessoa, mas como potencial inimigo. São todos vítimas. Quem fura filas, quem não respeita o farol amarelo, quem tenta sempre de alguma maneira tirar proveito de uma situação em detrimento do outro. Vítimas do sistema, vítimas da injustiça, vítimas de qualquer agente subordinador, vítimas de uma educação assassina que incute nas crianças a cultura brasileira da manada.
São muitos os que culpam. Mas são poucos os que primeiro dão para depois receber. E mudar. Experimente se doar. Se doar um pouco. De alma aberta.
Qual o livro que você nunca escreveu? Um livro de paz, em que as palavras iluminadas trazem um equilíbrio que não precisa de intelecto superficial para enganar. Algumas pessoas se enganam. Alguns e muitos esquecem de regar seus valores. Valores de amor, valores de singeleza. Valores de primeiro fazer para, então, movimentar a roda da prosperidade. Transbordando sorrisos, transbordando beleza. Não passa incólume o cidadão que, mesmo em condição de miséria, se atormenta com a necessidade de doar. O necessário para ser feliz. Experimente não esperar nem moldar o que você acha que merece. Receba e agradeça. Apenas receba. De alma leve.
Qual o livro você nunca escreveu? Dos discursos que se aprimoram. Do primeiro passo, da mão estendida, pois é bom o trocar. É bom devolver para a humanidade um estado de paz interno. Um presente. Por ser tão feliz, lhe permitir um agrado. Assim, do coração. Um sorriso com abraço para dizer quanto é preciso compartilhar com os demais desse universo interno de crateras mas de muitas belezas. Experimente o sopro da simplicidade. De aceitar que, em certos momentos, é necessário se afastar da miséria de mentes frágeis para fortalecer o próprio intelecto. O intelecto maior, a inteligência sutil que admite erros e acertos. Que não soma ao medo a vergonha de ter medo. Que não julga a riqueza e deseja a prosperidade. Sem hipocrisia. Porque é preciso ter para dar. E ter alma. Uma alma leve.
Eu vou devagar. Sentindo uma saudade, sentido uma lembrança, sentido perder-se no ar. Andando, sincronias passam por mim. Eu meço palavras, olhares, pesares na esperança de não denotar minha ira. Encontro imensos e as hipérboles me soam tão bem. Careço perigo, pois se encontro contigo me perco de mim. Tento forjar coincidências, na medida crescente em que minha memória é o grito de dor desde a plena ausência do que você nunca esteve. Minha alegria é mais rara quando plena encara a beleza de ser inteira. Preencho meus espaços quando escrevo os compassos do que me acorde feliz. Ouça o preço da felicidade para aprender que na vida há que se compartilhar. Dar e receber é demasiado fácil para apresentar o mero desafio. Ir mais fundo na cicatriz e lembrar que somos todos na mesma toada, somos a mesma estrada buscando o sorriso comum. Enquanto houver a separação, o hiato, haverá o grito, o espasmo, a dor de viver no não. Minha alegria é ainda mais cara quando plena escancara a beleza de ser inteira.
Existe um caminho a cruzar. Há palavras que movem e o caminho se torna reto. Há palavras que rasgam. E o caminho se torna denso. Há palavras que destroem quando imediatamente os passos voltam caminhos. Há palavras que escondem o que querem dizer. E movem desejos. Mas há palavras. As palavras não ditas. Essas que interpretam sorrisos. Cristalinos. Tempos idos. Há palavras sussurradas de olhar. Há vidas. Caminhos entrelaçados de interpretações. Silêncios de intenções. Há momentos. Há o hiato ligado ao verbo. E o caminho se torna a cor. Há os que traduzem silêncios. Esses fazem do caminho a poesia. Existem alguns caminhos a cruzar.
Fui começar a enquadrar no meu silêncio toda angústia que me cabia. Descoberta. Minha pele entreaberta. Olhei a vida e não precisava verbalizar essa confusão de pratos, gatos e serpentinas.Todos eles ali, dançando com meus pés no chão. A esconder dentro do pote com mel a doçura do sorriso envergonhado ao sorver delícias. Vergonha que o mundo me ruborescia. Quando o abraço apertado se fazia em público. O vento que sopra a ferida é tão livre. O que é livre não tem consciência de ser. Não precisa de companhia. A dor pode ser só para ser sentida. O só de dentro era o que entristecia. Quando vi no silêncio o então que não era angústia. O só de dentro virava a minha alegria. O abraço apertado na platéia era meu medo. Subi ao palco, colombina protagonista. O sorriso não precisava virar retrato do que minha alma pedia desculpa por aquilo que não disse. A colombina fala através do olhar. Precisar conciliar o mundo de fora e de dentro era minha jornada. Eu nada sabia. E cantava. A menina cansou de prosodiar amarguras. Mas ela era assim, toda ela, uma seresta. Toda agitada num copo de saudade. Mas ela era assim, a própria alegria. Criança que pula no mar e grita. Olha pro céu e vê poesia. De uma intuição.
De uma intuição meu corpo se desfazia em nós. Éramos a busca. Encerrávamos vida na mesma cordilheira de danças, ciganas e delícias. De sorver o mel da vergonha. Alegria. Para a platéia deixamos o um. Para conjugar mesa e cama. Tiramos da porta a chave que a nossa entrada já não temia. O amor que a beleza cingiu, o sorriso que resgatei da lembrança.
E quando parece morte é sobrevida. O sobressalto das veias que entopem em paisagens mais cinza. Eu aprendia a cada detalhe. Eu não sabia respirar. Quando pela primeira vez o halo de respiração açoitou o que era meu, meus pulmões, inchados, choraram de dor. Era a dor de nascer. Eu nascia a cada instante e descobria cada ilusão que eu acreditava verdade. Cada miragem que era só agonia. O halo. Cores tremeluziam em meus olhos e eu saía do útero como quem precisa lutar para viver. Toda uma luta. Um caleidoscópio de peças que não fazia sentido antes do primeiro gotejo de ar, o ar que encheu meus pulmões e agora me trazem vida. A vida. Como se eu precisasse desse corpo para entender que ainda não houve transcendência. Para sentir cada miséria e ali encontrar magia. Era o meu aprendizado. Quando eu esbarrava em cada cancela e não queria continuar. Era meu corpo gritando o cansaço desse corpo tão jovem mas tão reticente. Eu precisava entender que meu princípio era justamente o que não me faltava. Eu não sofria pelo não amor, mas pelo amor que eu não conhecia. Eu tinha ali, todos os dias, passando abertamente em minha vida, todo amor do mundo esperando o reflexo no espelho. De mãos abertas para a troca. O grande desafio é a sintonia da linguagem. Mas, da angústia, eu via minha ciclotimia. A inconstância de tanto sentir dentro de um corpo ainda despreparado para a vida real, a vida que se vive do lado de fora da ilusão. Meu princípio era um ego amordaçado, pedinte, mendigando valores que na verdade eu sabia que não eram meus. Mas o corpo engana. O corpo carece desvirtuar. A maçã da sabedoria. Sintonia fina entre o bem e o mal. Eu sentia um amor maior que o mundo. Mas ainda não sabia deixar amar.
O esquecimento é o que me dói, nas crateras de memória onde o sonho então ruiu. Me pergunto então à aurora, esse sonho eu já vivi? Sem resposta então me lembro que a beleza tão sonora dos versos que ouvi nunca estava à altura da superfície tão temente da cabeça que é só tua. Um futuro de presente é o passado de ausência. O momento de amargura é o porvir do recomeço. Sempre nasce uma ternura do amor que é sempre avesso. A ternura displicente, de quem já amou e agora sente que o amor está em dívida. E não ama, não se entrega, para cobrar ainda em vida o amor mais reticente. O espelho ainda sangra a imagem tão pungente. E essa falta que entorpece espera o outono da demora para amar abertamente. Faz do verso pobre prosa, a mentira inocente. A paixão que entremeia o momento da derrota e a vitória indecente é tão frágil que ignora o que a verdade agora mente.
Minha cabeça dói comiserações. Meus andares que traduzem quereres mal versados. Erudição típica daquilo que se esconde. Essas palavras tão obtusas. Metrô lotado de estivessem, passassem, quisessem. Na passarela, desencontro. O encontro de verdade. Um silêncio que a solidão merece. Felicidade plantada em campo estéril.
Eu não tive o tempo. E, como não conhecendo essa massa amorfa, não pude oferecer o que o meu tempo corria diferente. Que dissessem que eu, assim tão subliminar, não soubesse esperar. Eu aceitaria. Afinal, não havia serenidade naquela fúria de antecipar o momento do perigo: a possibilidade do olhar e não dizer. Por mero capricho. E, como pensando diuturnamente nossos planos, não hesitava em correr para contar nenhum segredo do que havia sonhado. E mistério, pois havia troca ali. Só que o tempo pede a mão dada. O tempo pede a construção. Ele grita, felicidade, a urgência de um sorriso menos egoísta assim. Eu não tive o tempo que o tempo me pediu. Pois não sabia o que vinha em minha verdade. Não fluíam meus cantos de versos meus. Rolava minha exegese no que de mais transparente eu me tornava difícil de explicar. Eu precisava da vontade de ver o mundo mudando. A vontade de fazer o mundo mudar. O cristal dessa possibilidade. A miséria menos vil. A dignidade mais acessível. Não era apenas o meu coração que eu queria saciar. Em mim, abarcava a realidade de que minha mão, estendida num amor, viria seguida de outra mão tão solidária que, juntas, meu deus, tão juntas fariam um tempo de estar. Eu não queria a passagem. Não queria o tempo de passar. Eu não tinha o tempo, pois o tempo não mais cabia em mim. E nem era pela fúria dos deuses que eu penava. Mas por entender que minha dimensão, assim tão outra, não captava o instante de permitir poder respirar. E, respirando, aprender que minha mão só estava ali pedindo um minuto de atenção. Um minuto da ação que eu tinha cronometrado à mão armada. Na única paz que poderia existir. Mas a minha urgência era mais do que essa minha vontade de dividir. Quando a unidade se faz assim tão fragmentada existe a impossibilidade do tempo amalgamar o amor.
Eu não queria que o meu amor virasse a estatística das desilusões aparecidas. E vislumbrava que o substrato dessa veia tão pulsante fosse a nobreza do que o tempo saberia unir na matéria primeira. Na força que move tanto que o mundo vira apenas uma extensão da possibilidade que já é feliz. Possibilidade que já era. E passou. A felicidade é o agora do sentir-se. E o agora é o meu sorriso por um triz.
Continuo do silêncio. Antes eu era uma resposta. Eu era a reação. Hoje sou a pergunta primeira. Aconteço com a areia que resvala vidro. Mesmo quando não há mais o que escoar. O tempo, senhor das almas e dores, começou a aurora. E o acreditar. Do aceitar. Compreende a profundidade de uma verdade. O que dói mesmo quando não quer machucar. Inspira almas e mentes. Esquecemos muitas vezes onde queremos chegar. O que queremos criar. E tudo o que nasce dói. A verdade sempre dói mesmo quando causa prazer. O prazer dói a dor doída de não cristalizar o momento, aquele minuto tão único do gozo. O efêmero renascimento. Respira que o gozo sorriso pode reverberar. Mas é preciso aprender a doer. Continuo num silêncio. Assim, de soslaio, camuflado. Ele sempre grita dentro aqui. Nunca cala essa voz quase tinhosa que impulsiona esse corpo a ir um pouco mais e além. Nesse vento que quase apaga a vela que, quase tinhosa, resiste. Liberdade.
E a chama continua ali, tremeluzindo sensações.
Não sou do tempo. Sou a pergunta primeira. Liberdade é não precisar de resposta. E não ser a reação. Tremem meus prédios, minhas gaitas, meus países. Meus oitenta anos que vão chegar. Minhas ilusões que vão morrendo a cada prazer atenuando o que eu chamava de meu. Sensações. E insisto, não sou mais as reações. A chama continua ali, reverberando as paixões minhas. Primeiras. Mas é quando amo que nasce rocha, transmutação. Tremem meus versos e minhas mãos. Sou um carinho petrificado no olho do outro que desejo, impulsão. E se o seu olhar continuar paciência, posso pensar propulsar coração. E não preciso de respostas. Sou o verbo e o primeiro. Estou o agora. Sou o encontro com o então.
Petria Chaves é jornalista. Tem 26 anos. É paulista.
Repórter e apresentadora da Rádio CBN, tem caminhos reversos e conversos.
Foi eleita em 2009 uma das cinco melhores repórteres de rádio pelo Troféu Mulher Imprensa.
Com a série de reportagens "Lixo Eletrônico - Paradoxo da Modernidade" recebeu
o Prêmio Allianz de Jornalismo na categoria especial Sustentabilidade e Mudanças Climáticas.
Série que também foi apontada uma das três melhores reportagens sobre destinação do lixo no Brasil pelo
Prêmio Abrelpe, da Associação Brasileira de Empresas de Resíduos Sólidos.
Em 2008, recebeu o prêmio APCA (da Associação Paulista dos Críticos de Arte)
pelo Programa Caminhos Alternativos, eleito pelo juri o melhor programa de rádio na categoria Variedades.
Versando, conversando, reversando, escreve prosas e contos
por diversão e simpatia.